O escravo moderno pagador de contas

escravo

Há pesquisas que comprovam que quando acordamos, temos o que denominamos de “tanque de decisões”. Conforme tomamos decisões, esse tanque vai se esvaziando. Que roupa usar hoje? O que comer no café da manhã? Que horas sair de casa para ir ao trabalho? Quais são as minhas prioridades do dia? Etc.

Depois de inúmeras decisões tomadas ao longo do dia, quando chegamos em casa à noite, já estamos com o tanque quase vazio. É quando a nossa energia vital fica baixa, estamos cansados física e mentalmente. Nesse momento, muitos de nós, com a intenção de descansar um pouco, assistimos televisão, o YouTube, o Instagram… E a sutil lavagem cerebral se inicia.

Vemos o mundo colorido das celebridades. Mesmo sabendo que aquela vida perfeita foi totalmente editada, começamos a achar a nossa vida monótona. Aliás, é tão monótona que começamos a consumir o que as celebridades consomem, quem sabe ficamos um pouco mais parecidas com elas?

Assistimos de camarote às diversas propagandas camufladas (ou explícitas…) incentivando o consumismo ao extremo. Assistimos também as tragédias do mundo inteiro, pois não basta mais mostrar apenas as tragédias de um único país.

Toda essa visão de mundo nos provoca ansiedade e medo. E trabalhamos cada vez mais com o intuito de amenizar a ansiedade e o medo que são gerados diariamente.

O trabalho nada mais é do que uma troca. Você vende seu tempo em troca de dinheiro. Se trabalhamos o mês inteiro em troca do tempo, e não conseguimos poupar nada, significa que gastamos todo o nosso tempo. Já quando o dinheiro sobra, temos a possibilidade de recomprar o nosso tempo.

O salário é a moeda de troca para desistimos dos nossos sonhos.

Acabamos nos tornando um escravo pagador de contas.

Pagamos um financiamento caríssimo achando que estamos fazendo um ótimo negócio, sem nem ao menos saber quanto de juros estamos pagando todo os meses. Ou até sabemos, mas ficamos ao lado dos bancos, típico comportamento de síndrome de Estocolmo.

Cada vez mais o salário vai sendo comprometido com algum boleto bancário. Parcelas do financiamento do apartamento, do carro, da escola, do convênio médico, assinatura da internet, do celular, TV a cabo… Ou seja, largar o emprego, nem pensar.

E assim, o uniforme do escravo moderno vai se tornando a camisa social com uma gravata que aperta cada vez mais o pescoço.

Mesmo em situações descritas acima, a maioria não sabe quanto recebe de salário, muito menos quanto gasta. Não tem interesse em estudar sobre investimentos. Prefere ficar na ignorância, pois assim, não precisa alterar a própria rotina.

Vive um mês após o outro, rezando para que nada de errado aconteça. E quando surge um imprevisto, parcela as dívidas, já que não possui reserva financeira.

Espera-se o mês inteiro para receber o salário, e no dia do pagamento, todo o dinheiro vai embora nos boletos bancários… Resta esperar por mais 1 mês inteiro para receber o próximo salário e continuar fazendo a mesma coisa, mês após mês, ano após ano.

Somos ou não somos um escravo moderno pagador de contas?

“A ditadura perfeita terá a aparência da democracia, uma prisão sem muros na qual os prisioneiros não sonharão sequer com a fuga. Um sistema de escravatura onde, graças ao consumo e ao divertimento, os escravos terão amor à sua escravidão.” Aldous Huxley

~ Yuka ~

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33 comentários em “O escravo moderno pagador de contas

  1. Excelente reflexão para um domingo de páscoa… vida nova… boa notícia… Yuka, posso trabalhar este texto com minhas turmas de 3ª série de E.M.? Darei, claro, todos os créditos. Se me autorizar, poderias, me enviar por e-mail, (estevamjg@gmail.com), um breve referencial bibliográfico seu? Nome completo, formação, profissão, já está bom.
    Obrigado e boa páscoa.
    Att. Estevam

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  2. Texto inteligente e provocativo, realmente escravos modernos… E vejo ao meu redor eu mesma nesse momento trabalhando para pagar boletos e financiamento que fiz no tempo da ignorância… Mas tudo bem a vida é um eterno aprendizado e cada um tem seu tempo… Temos que nos policiarmos sempre para não cairmos nas armadilhas, recentemente eu vi alguns posts sobre mesa posta, sempre achei bonito aquelas mesas bem arrumadas e tal e fui pesquisar os preços de umas coisas bacanas para fazer meu enxoval e quase caio pra trás com preço dessas coisas que estão longe de ser uma necessidade e desisti de seguir modinha… Vamos arrumando a mesa com meus pratos duralex mesmo que faz mais futuro kkkkkkk

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    • Oi Celia, errar faz parte, já errei muito e continuo errando ainda rsrs. O que podemos fazer é tentar entender como funciona o sistema de trabalho, as propagandas, como o marketing funciona, pra tentar cair cada vez menos nas armadilhas do consumo e da dependência financeira. Sobre sua mesa posta, tenta procurar algum vídeo no YouTube, parece que há diversas formas de fazer, quem sabe não acaba achando um que seja do seu agrado? Assim, você consegue ter a sua mesa bonitona sem pagar uma fortuna por isso. Beijos e uma boa semana pra você.

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    • Eu tenho percebido que estou mais ansiosa com a minha casa, querendo mexer e decorar por aqui, e isso tem me deixado apreensiva e triste por não poder gastar mais, não ter tempo de fazer dye e acabo achando a casa feia, mas nem é, tenho meus móveis e minhas plantas enfim… Depois percebi que ando consumindo muito conteúdo de decoração, de “donas de casa Youtubers e afins e sentindo cada vez minha casa inapropriada, não tendo sentimentos de satisfação com o jeito dela que até uns meses atrás estava perfeita.

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      • Oi Célia, mas é exatamente essa sensação que as empresas de marketing querem que você tenha: a eterna insatisfação. Assim, eles conseguem nos manipular e fazer com que a gente compre coisas, compre mais coisas, porque sempre estaremos insatisfeitas, buscando algo que nunca alcançaremos. Também já senti isso que você descreveu no comentário. Eu gosto muito de decoração também. Então a todo momento queria comprar coisas novas, mas é um desejo infinito, sabe? Então parei de acompanhar sites de decoração, o Pinterest, YouTubers com suas casas milimetricamente decoradas… Ficar consumindo conteúdos de decoração (ou de maquiagens, ou de moda, ou de qualquer outra coisa) vai fazer com que a gente sinta vontade de comprar e trocar os móveis a todo momento. Se possível, tenta se distanciar um pouco. Aos poucos, vai começar a enxergar a sua casa como um lugar sagrado para se estar. Beijos.

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        • Sim, já dei vários unfolows no insta, cancelei minha inscrição nos canais de decoração e vou desinstalar o app do Pinterest por uns tempos… pq não tá sendo legal!

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          • Verdade Célia. Você vai ver que quando conseguir se desintoxicar de todas essas propagandas silenciosas, vai passar a enxergar a sua vida de outra forma. Eu também passei por isso que você está passando. Meu marido também passou por essa fase. E nessa fase, nós temos 2 opções de escolha: a primeira é desacelerar e começar a enxergar as coisas que já temos e passar a ter gratidão. A segunda, que é onde a maioria das pessoas estão, é cair na armadilha do consumismo e passar a consumir mais e mais, sem parar. Deixar de ter Facebook, deixar de assistir televisão e não ir para o Shopping foram atitudes cruciais para a minha vida. Beijos.

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  3. Olá Yuka! Faz tempo que não comento por aqui… adorei o post sobre a páscoa. Aqui em casa não costumamos comemorar datas festivas com presentes, acho que o significado mudou muito e virou um tanto comercial. Enfim, respeito quem gosta, mas não costumo pedir nem comprar presente entre eu e meu esposo… estou tentando criar essa cultura agora com minha pequena. Se bem que os avós vem visitá-la e enchem de presente como se fosse comprar a criança… ai ai
    Sobre o post de trabalho, é a mais pura realidade da maioria…o tempo está passando tão rápido! Pior que lembrei que um dia me disseram “depois dos 15 anos passa rápido” e não é que passou! Daqui a pouco estou chegando nos 40 e o que fiz de diferente?
    Um grande abraço. Adoro seus posts

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    • Realmente, todas as datas comemorativas viraram puro consumismo. Eu também não troco presentes com o meu marido, desde o início do namoro tínhamos decidido isso. E é muito libertador não ter que comprar presente só por comprar, só porque é dia dos namorados, Natal, aniversário, Páscoa… Olha, pra mim o tempo começou a voar depois dos meus 30 anos rsrs. Parece que eu pisquei, e já estou quase chegando nos meus 38. Às vezes nem consigo acreditar que eu e meu marido estamos juntos há 9 anos.. parece que começamos a namorar ontem rsrs. Um beijo pra você. Uma boa semana.

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  4. Esqueci de comentar, vejo Alguns vídeos no YouTube e realmente, tanta perfeição… Não é a toa que várias pessoas estão ficando com depressão, por se sentirem inferiores ao ver essa vida “editada”….

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    • É “perfeição” total!!! Todas as mulheres com corpo perfeito, com barriga chapada, sem celulite, sem estria, lindas e maravilhosas, acordam já maquiadas rsrs. E eu aqui, com o cabelo descabelado, nem consegui pentear o cabelo ainda, olheira por ter dormido tarde (e acordado cedo – porque quem tem criança entende o que estou falando…)… A gente é gente como a gente kkkk.

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    • Muito bom o texto. Bem completo. Até eu sinto que às vezes estou com burnout, por isso sempre tento desacelerar para não entrar na mesma vibe que todo mundo. Beijos.

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  5. Nossa até tremi lendo essa frase. Pior que é isso mesmo que estamos vivendo atualmente 😦 Mas fico feliz por ver que tem gente como você, que vê esse outro lado, e nos inspira a mudar!

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    • Oi Claudia. Eu mesma vivi durante muito, muito tempo como escravo moderno pagador de contas. O salário entrava e eu já saía pagando todas as minhas dívidas. Era financiamento, cheque, fatura do cartão de crédito, fora as coisas que eu queria comprar e que estava esperando só o salário do meu próximo mês entrar. Até que entendi que tudo isso é feito de forma proposital, criam uma ilusão de insatisfação para que continuemos sempre consumindo mais e mais. O texto foi só uma forma de mostrar que se não tomarmos cuidado, estaremos cada dia mais presos nessa armadilha do consumo. Beijão pra você.

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  6. Texto maravilhoso, estou com esse sentimento há semanas.
    Sofri um acidente e tive que ficar afastada do trabalho por cerca de 12 dias, e ontem quando retornei senti que estava ali somente em corpo, pq a alma desejava estar em casa estudando para concurso público; pois essa é a minha meta. E hoje me vejo aqui novamente pensando que não gosto do que faço, não me sinto confortável com os meus colegas de trabalho, e que 8 horas do meu dia eu só penso no que poderia estar fazendo fora daqui. Mas já estou tomando providencias para mudar essa situação, pois felizmente já tenho uma reserva de emergência e só preciso ajustar mais alguns detalhes para poder seguir outro caminho.

    Yuka, muito obrigada pelo texto e obrigada por existe neste universo de blogs!

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    • Nossa, sabe esse sentimento que você descreveu, dos 12 dias que você ficou em casa cuidando da sua vida? Eu tive isso quando fiquei em casa de licença maternidade. Quando voltei a trabalhar, não me conformava ver o tempo passando diante dos meus olhos, presa em um escritório por mais de 9 horas por dia. Você já está tomando as atitudes necessárias para sair desta situação, então será uma questão de tempo alcançar os seus objetivos. 😀

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    • “E hoje me vejo aqui novamente pensando que não gosto do que faço, não me sinto confortável com os meus colegas de trabalho, e que 8 horas do meu dia eu só penso no que poderia estar fazendo fora daqui.“

      Descreveu minha vida. Só que não estou vendo luz no fim do túnel. Concurso é demorado, empreender também. Emprego na iniciativa privada, na minha área, pior ainda. Meu sonho é poder exercer o curso que estudei (faculdade e pós-graduação 4 vezes). Mas a cada dia que passa, não sei se isso será possível. Afinal, temos contas a pagar…

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      • Oi Carol, não sei se é possível, mas tenta rever todo o seu orçamento para aumentar o valor do seu aporte, o valor que você consegue poupar todos os meses. Se mudar de emprego ainda não é possível, aumente o valor que poupa todos os meses. Quem sabe? Beijos.

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  7. Yuka,

    Seu post ficou simplesmente perfeito!

    “Toda essa visão de mundo nos provoca ansiedade e medo. E trabalhamos cada vez mais com o intuito de amenizar a ansiedade e o medo que são gerados diariamente.”
    Por isso, precisamos estar no mundo, mas não pertencermos 100% à ele, mas somente o necessário.

    Boa semana,
    Simplicidade e Harmonia

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    • Oi Rosana. Meu marido fala isso que você escreveu. De que a partir do momento que descobrimos como é a “regra do jogo”, podemos participar somente o necessário ou até mesmo sair do jogo quando quisermos. Beijos.

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  8. Nossa, eu fico horrorizada ao perceber que a maioria das pessoas a minha volta não tem um real guardado praticamente! E se acontecer alguma coisa? É o que sempre me pergunto. Eu acho que nem dormiria se não tivesse uma reserva.
    Tudo são escolhas. As pessoas são imediatistas, escolhem consumir no agora. Fora que consomem cada bobagem. Usar a desculpa “eu mereço” é tão simples. Ok, merecemos muitas coisas boas, mas sair comprando, principalmente bens materiais, para se recompensar o tempo todo é inviável.
    Confesso que eu mesma usava essa desculpa de “mereço” ou “tive um dia difícil” para comprar pequenas bobagens de comer, um chocolatinho, uma fatia de bolo, um capuccino… Como sou controlada, não era tão frequente que atrapalhasse o orçamento, mas percebi que não era um bom hábito mesmo assim. Agora, se tive um dia difícil, vou para casa, como algo saudável, descanso, assisto um filme que eu goste ou leio um livro interessante para mudar o foco do pensamento, digo para mim mesma que foi apenas um dia difícil, no longo prazo não terá quase nenhuma importância, será esquecido, já passou. Não é preciso comprar algo para se compensar, principalmente comida.
    Parece que a maioria das pessoas não entende que são necessários alguns sacrifícios para alcançar coisas mais importantes na vida.

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    • Oi Adriana, infelizmente, a maioria das pessoas ainda não perceberam que a água já está batendo no pescoço há muito tempo. Muitos ainda possuem a ilusão de que terão aposentadoria digna pelo INSS, que o filho irá ajudar financeiramente, que o país vai melhorar, que tudo vai ser acertar. Claro que as coisas podem melhorar sim, mas e se não melhorar né? E é para esses momentos do “e se…” que a gente tem que se precaver. Sobre as pessoas serem imediatistas, são mesmos. E digo mais. Além de serem imediatistas, ainda criticam os que poupam pensando no futuro. As pessoas acabaram se acostumando lidar com os dias difíceis sempre abrindo a carteira: comer em restaurantes, comprar bobeirinhas, dar lembrancinhas, etc. Como se as diversões gratuitas valessem menos… um passeio a pé pelo bairro, um piquenique na praça perto de casa, preparar uma comida caseira, um doce gostoso, enfim, são coisas que as pessoas não valorizam mais. Quando mais caro a programação, mais valor uma pessoa dá. Bom, são escolhas, né? Beijos.

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      • Yuka, é a vida se gourmetizando infelizmente haha. Antigamente tudo era mais simples, não existiam tantos “ralos” para o dinheiro e acho que todo mundo vivia até melhor.

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        • Verdade. Antes as pessoas sabiam quais eram as prioridades. Tem aquela frase “as coisas mais importantes da vida não são coisas”. Hoje, para a maioria das pessoas, as coisas mais importantes da vida são coisas.

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    • Oi Pinguim, não conhecia esse termo em inglês. Pra mim, é como se as pessoas estivessem hipnotizadas… por mais que eu fale (hoje já não falo mais pra ninguém), ninguém presta atenção, ninguém ouve, as pessoas parecem estar certas de que gastar sem pensar em amanhã é o certo, já que “caixão não tem gaveta”, vivem sem dinheiro, fazendo dívidas de forma desnecessariamente, rezando para que o mês passe logo para receber o próximo salário. Que vida!

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  9. Oi Yuka, eu sei bem o que é ser uma escrava moderna. O Japão é um país extremamente workhaloic. E a gente sem perceber vai se tornando também… o tal efeito manada. Como é difícil andar na contramão! Estamos em pleno Golden Week (feriado prolongado em Maio) e pesquisas apontam que os japoneses estão muito insatisfeitos com os 10 dias de feriado desse ano, acham exagero ter tanto tempo assim livre. Muitos se candidatam para serviços temporários. Os famosos baitos.

    Sinto falta as vezes da Tiemi do Brasil. A Tiemi com 20 anos, recém-casada, em seu primeiro emprego registrado, ganhando menos de mil reais. Não sinto falta da minha situação financeira. Mas sinto falta da Tiemi que eu era. A Tiemi despreocupada com moda, aparências, mundo virtual… Lembro-me que trabalhava numa empresa que lidava com pessoas de alto poder aquisitivo. E isso fazia as funcionárias pensarem que elas também tinham esse “poder” de certa forma. Mas nosso salário não era compatível ao estilo de vida desse pessoal. Mas elas gastavam praticamente todo o salário com roupas, maquiagens, estética, salão de beleza, restaurantes da moda… tudo para aparentar ser como nossos clientes. Fazer parte daquele mundo.

    Eu, acordava 5h da manhã todos os dias pra pegar ônibus, não tinha tempo de me maquiar (ou eu comia ou me maquiava. Prioridades certo?). Não usava salto como as colegas de trabalho. Era a única da empresa que levava marmita. Fazia minhas próprias unhas enquanto todas iam na manicure semanalmente. Não tinha Facebook, nem Instagram. Naked pra mim era “Nu” em inglês e não uma paleta de maquiagem. Todo meu salário era comprometido com gastos da casa e de recém-casada. As roupas que eu usava, eram as que eu ganhava de presente da mãe, da vó, da tia… Nada combinava com nada! Rs… Meu celular era um Nokia, que nem câmera tinha! Enquanto todos no meu trabalho já tinham um smartphone, um iPhone pra ser mais exata. Isso era 2013. Pensa se eu não era motivo de deboche? Todos os dias minhas “amigas” de trabalho riam do meu celular, das minhas roupas, falavam que iam me inscrever no programa esquadrão da moda… enfim… eu não ligava, mas pensava: roupa foi feita pra vestir! Celular foi feito pra se comunicar! Se as minhas coisas cumprem seu propósito, pra que preciso comprar novas sem ao menos ter condições financeiras?

    Quando eu vim pro Japão. Um novo mundo se abriu. Pela primeira vez, eu tinha um iPhone, não pq eu queria, mas pq aqui nem vende mais celular convencional… Eu comecei a ter meu próprio estilo pq finalmente tive dinheiro pra comprar minhas próprias roupas. Descobri o mundo das maquiagens e cosmeticos! Agora eu tinha carro, pq moro no interior e o sistema de transporte público é precário. Eu comecei a frequentar restaurantes da moda, pq eu mereço né? Trabalho horrores e não tenho tempo de cozinhar… passei a terceirizar serviços (marmita, manicure, etc). E sabe de uma coisa? Eu fiquei confusa! Me sinto perdida. As vezes parece que eu não sou eu. Nada disso trouxe a alegria que eu esperava. Não minto que facilitou demais minha vida, mas me tirou o controle, domínio próprio. Parece que eu não tenho mais opção de escolha. Meu tempo não é mais meu. E depois que vc esta dentro do efeito manada, é muito difícil abdicar de todas as “facilidades” oferecidas por esse mundo. É difícil lidar com o sentimento de “peixe fora do aquário”.

    Desabafando tudo isso pra você, lembrei daquele seu post que fala sobre o “caminho de volta”. Tenho 25 anos e já estou procurando meu caminho de volta. Espero de verdade, agora com minha filha a caminho, 2 anos de licença maternidade, eu finalmente desacelere. Sei que a mesma Tiemi, eu nunca serei. Mas que eu possa mudar o suficiente pra ensinar minha filha a viver o simples, o real… o importante!

    Como sempre, vc me inspira! Me perdoe o textao, mas imagino que pra vc como amante da leitura e escrita, também deve gosta de conhecer um pouquinho dos seus leitores. Beijão!

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    • Oi Tiemi. Siiiim, eu adoro comentários longos rsrsrs. Então até deixei esse comentário para responder quando estivesse um pouquinho mais tranquila. Sabe que quando você comentou que os japoneses estavam achando o feriado do Golden Week longo demais, fiquei espantada, mas não me surpreendeu. Os japoneses trabalham demais, não vivo aí para saber como é a rotina diária, mas a impressão que me dá, é que ficam tempo demais fora de casa, ora trabalhando, ora saindo para beber com os colegas de trabalho. É muito difícil escapar de uma cultura que preza o excesso de trabalho. Não é à toa que alguns morrem de “karoshi”. Eu já trabalhei que nem uma maluca na outra empresa e me trouxe sérios problemas psicológicos e fisicos na época, além do divórcio com o meu ex-marido. Não quero isso nunca mais para minha vida. Quando você falou que “Sei que a mesma Tiemi, eu nunca serei”, realmente, a gente não consegue voltar a ser o que éramos. Mas dá para ser melhor 😀 Quando sua filha nascer, seu tempo será diferente. Seus dias passarão mais rápido (e você vai ficar cansada, descabelada, sem dormir por um tempo rsrsrs), mas vai ter a sensação de que está tomando conta da sua vida pela primeira vez. Aí será o seu “caminho de volta”. Não precisa fazer todas as mudanças de uma vez, vá aos poucos. Por exemplo, quando digo que invisto cerca de 60% do meu salário, as pessoas não conseguem acreditar. Mas eu não poupo 60% desde sempre. Comecei com 10%, depois fui para 11%, depois 20%, e mês após mês, ano após ano, fui enxugando os supérfluos, até que cheguei em um valor que acho legal, sem passar vontade. Então continuo viajando (aliás, voltei de uma viagem de 4 dias ontem hohoho), indo em restaurantes, comprando o que tenho vontade, passeando… Em relação aos hábitos, foi a mesma coisa. Vá fazendo devagar. Daqui a 5 anos, quando você olhar pra trás, vai ver que muita coisa mudou para melhor. Você no Japão, eu em São Paulo, nós duas em uma cidade onde a maioria das pessoas são consumistas e workaholics. Mas dá para desvencilhar desse mundo insano e criar um mundo único. Você é nova, tem 25 anos (tenho 12 anos a mais do que você, afe rsrs), então aproveite a jornada e divirta-se no seu caminho de volta. Um beijão.

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