É inegável que certos lugares, objetos, aromas e pessoas têm o poder de nos trazer calma e conforto.
A voz de quem nos ama.
O cheiro do cabelo das nossas crianças.
O folhear das páginas de um bom livro.
Aquela mesa da cafeteria preferida que torcemos para estar disponível.
O ingresso de um show de um artista que amamos.
O abraço do amigo que acalenta.
Um álbum de fotos e as lembranças que vêm junto.
Uma carta de amor.
Ouvir uma música que traz boas memórias.
Sentar na beira do mar e sentir a brisa no rosto.
Uma folha em branco e uma caneta para registrar os pensamentos.
Meditar.
Fechar os olhos e prestar atenção na respiração.
Eu posso dizer que sou uma pequena colecionadora.
Coleciono bons amigos, coleciono momentos inesquecíveis, coleciono bons livros. Coleciono minhas cafeterias preferidas, os lugares da cidade que mais gosto, as comidas que mais amo…
E de coleção em coleção, vou costurando a minha história de vida e procurando cada vez mais as pequenas felicidades que preenchem a minha alma.
Esses dias, minha filha mais velha perguntou se eu queria ser multimilionária e eu disse que não.
Dinheiro compra conforto e facilidades (e para quem quiser, status e poder), mas nem sempre, a felicidade.
Expliquei que tendo muito dinheiro, eu poderia comprar coisas e contratar serviços, claro, mas expliquei também que eu já tinha tudo o que precisava.
Ter mais dinheiro não iria mudar essas coisas importantes que eu já possuo. Eu estou numa situação em que estou confortável com a minha situação financeira.
Eu já tenho saúde, eu me sinto amada, tenho a minha família, um marido que me ama mais que tudo nesse mundo e minhas 2 filhas que são espertas e carinhosas. Tenho meus amigos. Tenho um trabalho em que sou respeitada, que me gera uma boa renda mensal. Esse salário me oferece conforto no meu dia a dia e ainda consigo poupar.
A minha filha mais nova falou que esses dias a professora fez uma enquete na sala, de qual era o sonho das crianças e que todo mundo respondeu que queria ser rico. Minha filha deu risada e disse que a única resposta diferente foi a dela: o sonho dela era adotar um cachorro.
FIRE (Financial Independence, Retire Early) não vai resolver todos os problemas. Vai resolver alguns dos problemas claro, mas não todos.
Achei alguns vídeos interessantes sobre dinheiro no TEDx, assistam se puderem (se necessário, ative a tradução para o português):
1.) Achei esse vídeo abaixo interessante, sobre por que não devemos aumentar o padrão de vida:
2.) Este vídeo abaixo, fala sobre a importância de fazer downsize, já até escrevi um post sobre esse assunto:
3.) Já este vídeo abaixo, fala sobre os 4 estágios da aposentadoria, que muitos FIRE’s passarão:
Eu percebi que eu sou essa pessoa. Vivo uma vida minimalista, sem grande consumismo, moro em um apartamento legal – mas que não parece que saiu de uma capa de uma revista de decoração, tenho filhas conscientes com dinheiro, dou bastante conforto para elas, mas não dou luxo, porque quero que elas aprendam sobre o valor do dinheiro, e que não desvalorize outras pessoas só por achar que temos mais.
Para mim, a qualidade das coisas importa, mas a marca não. Ou seja, não ostento.
Meu interesse nunca foi ter bens, e sim, ter qualidade de vida.
Continuamos com o mesmo estilo de vida, mas aumentamos de forma considerável a qualidade de vida. Ou seja, “por fora”, ou para quem nos vê de fora, nossa vida é bem modesta, afinal, continuo morando em um apartamento alugado, uso sapatos e bolsas que não chamam atenção, ando em um carro que tem mais de 10 anos, estou sempre de chinelo (exceto no trabalho – hah ), vou ao trabalho utilizando transporte público, com uma mochila nas costas, porque além de livros, carrego a minha marmita, minhas filhas usam roupas de boa qualidade doadas pelas filhas da minha prima.
Agora, para nós, nossa vida é um suprassumo de pequenas e diversas felicidades que são escolhidas a dedo.
Dentro de casa, tenho coisas que considero itens de luxo… Não economizo em livros. Consumo alimentos orgânicos desde carne, temperos, molhos, grãos, frutas, verduras e legumes. Também dou preferência para alimentos de verdade: um bom azeite, leite fresco, ervas frescas, frutas da estação, etc. Passeamos e viajamos com frequência, mas como não posto as fotos em lugar nenhum, as pessoas nem ficam sabendo das nossas vivências.
Apesar de termos uma vida bastante confortável, vivemos sem esnobar, nem ostentar.
A maturidade me fez entender que nem tudo que reluz é ouro, e que estilo de vida é bem diferente de qualidade de vida.
Eu decidi ir atrás de uma boa qualidade de vida, e não dar importância para o estilo de vida, principalmente, porque morando em um país pobre como o Brasil, com tanta gente passando fome e necessidade, entendi que não ostentar é uma questão de respeito com o próximo.
Quando a gente descobre sobre o movimento FIRE e a possibilidade de se aposentar mais cedo, podemos errar na dose da economia.
Economizar todo o dinheiro não traz graça à vida, da mesma forma que consumir desesperadamente como se não houvesse amanhã não traz tranquilidade financeira.
O segredo é descobrir onde está o SEU equilíbrio entre consumir e economizar.
Eu conheço pessoas dos dois extremos, desde pessoas que gastam todo o salário do mês, faz dívidas e ainda acha bonito, fala com a boca cheia que sem dívidas, não teria conquistado nada na vida. E também conheço pessoas que já passaram por tantas necessidades financeiras que hoje têm medo de gastar.
Eu sempre tento equilibrar os gastos, mas tenho sempre uma coisa na minha cabeça: que eu posso morrer a qualquer momento.
Já comentei algumas vezes que meu pai morreu de leucemia aos 35 anos. Eu tinha 3 anos quando isso aconteceu.
Hoje eu tenho 43 anos, então a todo momento eu lembro que estou fazendo “hora extra”, e que posso deixar essa vida a qualquer momento, assim como aconteceu com o meu pai.
Quando comento sobre essa minha “hora extra”, minhas amigas ficam horrorizadas, mas eu mesma, não enxergo como algo ruim, e sim, como algo que pode acontecer com qualquer um de nós.
Se eu morrer amanhã, vou me arrepender de algo? Deixei de ter algo que eu queria muito? Deixei de ir em algum lugar que eu tenho vontade? Deixei de experimentar algo? Economizei demais? Minha família vai conseguir seguir (financeiramente) sem mim?
Eu respondo mentalmente a todas essas perguntas de forma cuidadosa e meticulosa, sempre pensando no equilíbrio, de que preciso viver bem hoje, sem deixar de pensar no meu futuro, na minha aposentadoria e no futuro das minhas filhas.
E como faço isso?
Eu estipulo metas financeiras na minha vida.
Eu destino alguns valores fixos para gastar no lazer, em restaurantes, em viagens.
No meu caso em particular, como eu já juntei um bom patrimônio, e é só deixa-lo fermentando bem até virar FAT FIRE, aumentei minha qualidade de vida com cuidado, principalmente em coisas que trazem saúde física e mental.
Mas de novo, é sempre bom ter uma cota para não gastar de mais, e também para não economizar demais.
Ter essas cotas financeiras me ajuda a lembrar que posso me divertir mais, posso gastar mais, pois estou fazendo bem a minha lição de casa, de poupar todos os meses.
Cuidado para não deixar de viver. Você pode não estar vivo amanhã.
Depois que juntei um bom patrimônio, minha relação com o trabalho mudou. O que antes era quase insuportável, se tornou não só suportável, mas agradável.
E essa minha compreensão em relação ao trabalho mudou por 2 motivos:
Pandemia: a pandemia me fez perceber que eu não sirvo para ficar em casa, nem para home office. Descobri que para mim, trabalhar faz bem, e que é importante sair de casa, continuar tendo relacionamentos presenciais e principalmente, delimitar meu espaço da casa e espaço do trabalho.
Ter alcançado um certo valor de patrimônio: antes era uma missão quase impossível… de repente, com o número ali, beirando o valor da meta estipulada, percebi que se eu não tivesse gastos estratosféricos, o meu custo de vida já poderia ser bancado pela renda. E essa realidade, tirou a sensação de que trabalho por obrigação.
2023
O ano de 2023 foi o ano que eu parei de acompanhar o mercado financeiro e de fazer fechamentos mensais da minha planilha.
Meu marido passou em um concurso público na área desejada, e como ele ama o que faz, não tem interesse nenhum em se aposentar. Aliás, consegue se enxergar trabalhando (se o corpo e a mente permitirem) até 75 anos, idade em que se torna obrigatório a aposentadoria no serviço público.
Também alterei a minha jornada de FIRE para Coast FIRE, afinal, se não pretendo mais pedir demissão, e meu marido ainda passou em um concurso público, eu poderia deixar o patrimônio já acumulado adormecido por mais alguns anos para que os juros compostos façam o seu trabalho e alcançar o almejado Fat FIRE, porque não?
Bom, esse conforto acabou gerando um gatilho em mim e posso dizer que o ano de 2023 foi o ano da gastança. Tudo bem que eu não estava 100% bem em relação a minha saúde mental, mas acabei usando as compras como uma válvula de escape.
Guardei aquela Yuka minimalista em uma gaveta, e virei consumista, gastava horrores, fatura do cartão de crédito lá em cima. Confesso que foi bastante divertido e preocupante ao mesmo tempo. Eu sabia que algo não estava normal, mas sinceramente? Não me preocupei. Continuei gastando até dizer chega, até enjoar. E aí em dezembro de 2023 dei um basta em mim, de que agora estava na hora de voltar para a normalidade.
Precisava das coisas que comprei? Não. Aliás, comprei tanta coisa tão inútil… afe… Tudo bem, entendo que ninguém é linear, muito menos sensato e equilibrado 100% do tempo.
A parte boa, é que apesar dos gastos terem aumentado consideravelmente, nem eu nem o marido nos estressamos com isso. Meu marido sabia que eu tinha virado a louca consumista, mas sabia que era uma fase e que iria passar.
2024
O ano de 2024 os gastos estavam mais controlados, mas nosso custo médio mensal aumentou. Aumentou, porque relaxamos um pouco o orçamento, pois tínhamos consciência de que poderíamos passar a gastar mais, sem prejudicar o futuro, já que decidimos que seríamos Coast FIRE.
Desde 2022, sabíamos que não haveria mais tanta necessidade de fazer aportes mensais de forma religiosa.
Poderíamos aos poucos, afrouxar o valor dos investimentos mensais. Ainda poupamos todos os meses, hora a taxa de poupança é de 20%, hora de 50%, mas não há mais necessidade economizar tanto. Podemos e devemos gastar para melhorar a qualidade de vida da família.
Digo para o marido que estamos em outra fase, agora é a fase de criar muitas memórias afetivas, criar eventos importantes em família que ficarão nas memórias das nossas filhas para sempre, como a renovação de votos do casamento que fizemos.
Inserimos alimentação completa de orgânicos, estamos praticando esportes. Contratamos pela primeira vez na vida, uma diarista para limpar a casa duas vezes por mês.
Acho que foi o ano que mais gastei em livros. Tanto eu como as crianças devoramos os livros sem parar, lemos a todo momento, e vou comprando cada vez mais.
2025
Meu marido fez algumas contas na calculadora de juros compostos e viu que com o montante que temos, só confirmou (o que eu já sabia, mas ele ainda não) que não faz mais muita diferença aportar, principalmente se estipularmos um prazo de 10 anos.
Claro que com o aporte, o patrimônio final aumenta, mas mesmo sem aporte, já estaremos com um valor ótimo. Ou seja, em menos de 10 anos, teremos o valor equivalente a FAT FIRE, mesmo com o custo de vida ter elevado um pouco nestes últimos anos.
É aquela história do dinheiro. Para quem ganha pouco, é claro que um salário alto faz muita diferença na vida. Mas após um determinado valor de salário, mesmo se a pessoa ganhasse o dobro, a felicidade não irá dobrar; o gosto da comida não será o dobro mais gostoso e por aí vai.
E com isso, ele concordou comigo, de que agora é momento de gastar em memórias, e deixar o patrimônio fermentar apenas com os juros compostos, enquanto curtimos nossa vida em família.
Para quem tiver interesse, segue o link da Linha do Tempo da minha jornada FIRE de 2010 a 2021.